Original:
Le Cancre
Il dit non avec la tête,
mais il dit oui avec le coeur.
Il dit oui à ce qu’il aime,
il dit non au professeur.
Il est debout.
On le questionne,
et tous les problèmes sont posés.
Soudain le fou rire le prend
et il efface tout:
les chiffres et les mots,
les dates et les noms,
les phrases et les pièges.
Et malgré les menaces du maître,
sous les huées des enfants prodiges,
avec des craies de toutes les couleurs,
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur.
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(minha) Tradução:
O Mau Aluno
Ele diz não com a cabeça,
mas diz sim com o coração.
Ele diz sim a quem ele ama,
ele diz não ao professor.
Ele está de pé.
Questionam-lhe,
e todos os problemas são apresentados.
De repente o riso louco o toma
e ele apaga tudo:
os números e as palavras,
as datas e os nomes,
as frases e as armadilhas.
E malgrado as ameaças do mestre,
sob as vaias dos meninos prodígios,
com gizes de todas as cores,
sobre o quadro negro da desgraça
ele desenha um rosto de felicidade.
Poema de Jacques Prévert
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Outono
Minha inspiração parecia uma árvore decídua. Não só isso, mas tudo me levava a crer que era pleno outono, época de colher os frutos do que foi semeado e deixar que tudo o mais perca a cor e seja dominado pelo inverno.
Frutos não havia. As sementes se perderam em caminhos perigosos, espinhais e terrenos pedregosos. E talvez não houvesse uma quarta semente para cair em boa terra e terminar feliz como diz a santa parábola. Era tarde, era outono, e o inverno viria.
Talvez uma das paisagens mais belas de se ver seja um grupo de árvores com suas folhas todas amarelas, como se tivessem recebido um banho de ouro. É uma cena que, por sua beleza, traz felicidade, mas não uma felicidade extasiante ou intensa como de uma gargalhada, e sim uma felicidade um tanto nostálgica, constante e serena; um doce meio-amargo. Quando, porém, as folhas começam a cair, resta-nos apenas a nostalgia, e a felicidade que um passado trouxe - ou que um futuro poderia trazer - torna-se uma amargura irremediável.
O barulho que fazem as folhas caídas é mais silencioso que a pura quietude. Ele anuncia uma estação em que as folhas serão enterradas pelo solo e não sairão mais de lá. O vento não me tenta confortar, mas diz-me constantemente para me conformar. Talvez esteja certo.
O que me importa se virá uma primavera depois do inverno? Talvez até lá eu já esteja frio suficiente para ter neves eternas em minha cabeça. Talvez até lá eu não consiga mais sentir o cheiro das flores. Pra que servem as flores? Mas se me desespero, desconformo a mim e se me conformo desespero a todos.
Aos outros, não devo satisfações. Eles parecem viver em outro mundo ou país, menos maltratado pelas rígidas estações ou com anos mais curtos onde o descanso chega mais cedo e a intempérie não corrói as raízes. E também o Sol já brilhou mais para mim do que para eles em algum dia.
Mas se uma flor nasce no asfalto frio, quê digo eu? Se no meio de uma rígida pedra há um caminho, quê faço eu? Digo que acordei, e estava dormindo. Escrevo um texto que nunca escrevi. Canto uma canção a um novo raio de Sol que vi brilhar. Mudo a ordem das estações. Sorrio, coro e pulso forte.
No meio de incertezas diversas e evidências que conspiram contra mim, se vejo uma folha tombar, não temo: não acredito mais no inverno.
Sonetos de Bocage
Gostaria de compartilhar aqui dois belos sonetos de Manuel Maria du Bocage, famoso poeta português.
Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava;
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua orgia dana.
Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.
Deus, oh Deus!... Quando a morte à luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
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Já Bocage não sou! . . . À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento . . .
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa! . . . Tivera algum merecimento,
Se um raio de razão seguisse, pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
"Outro aretino fui . . . A santidade
Manchei . . . Oh!, se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!"
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Medo do Escuro
Vocês todos presenciaram. A luz minguando, oscilando lentamente, diminuindo até apagar. Não só uma, todas. Todas as luzes apagaram. Certamente restaram as luzes de emergência, mas essas nada fazem senão nos livrar da morte, na medida de seu alcance. E pouco elas durarão, se a escuridão que cobre casas, prédios e cidades não se retirar.
Talvez as usinas hidrelétricas tenham parado. Talvez as águas que por elas corriam pararam de correr. E não é necessário que se explique como e por que isso aconteceu. Mas, mesmo não sendo necessário, pode trazer satisfação a tantos que procuram um motivo, além de trazer uma ocupação a um jovem em meio ao escuro.
Talvez tenham as águas cansado de se mover. "Mas a gravidade é que as move" - diria alguém tentando parecer sensato. Cansou-se então a gravidade de mover as águas das hidrelétricas! Uma greve da natureza contra os homens. E então diriam os ambientalistas: "Dissemos que a natureza iria cobrar caro." Mas nem eles têm razão, pois consideram a natureza um funcionário explorado que morre fadigado em meio ao trabalho. E sabemos que não é esse o caso. Multidões de funcionários podem ser levados a uma greve mesmo que não estejam sendo cruelmente explorados, bastando para isso um sindicato bem articulado e com grandes interesses.
Mas, se apenas as águas parassem, o que importaria? Importaria aos peixes, aos seres fluviais, e não aos humanos egoístas. Só importa a nós agora pois essa paralização nos tirou a luz. Vimo-la minguar, oscilar, diminuir até apagar, tudo isso com nossos próprios olhos. E quase nenhum de nós pensou que pudessem ser todas as luzes que se apagaram, até obter notícias de desesperados distantes.
A luz faz falta. Sem elas, foi-se o trabalho, foi-se o trânsito, foi-se a nossa comunicação. Este texto mesmo só será divulgado se a luz voltar, pela volta do movimento das águas ou por outro motivo.
Na noite, criam-se novas luzes nos quartos. Fogo, tal como nos tempos de nossos antepassados. Um fogo fraco, mais natural que as lâmpadas. Junto das velas, os que crêem e os céticos, mesmo que inconscientemente, fazem preces para que a luz volte em breve, pois temos medo, medo do escuro.
Texto escrito na terça-feira, durante o apagão, à luz de uma vela fraca.
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Na véspera
A pensão ficava em um bairro bonito da capital, no mesmo bairro da escola. Quem pagava a escola era minha madrinha Tia Alice, que tinha dinheiro, ao contrário de meus pais. Mas quem disse que eu gostava? Para estudar lá eu não podia morar na minha cidade, tinha que morar na pensão; além disso eu era um vagal: detestava ler textos e fazer tarefa de casa. Mas o problema era o seguinte: nesta quinta-feira eu tinha que fazer uma redação para entregar ao Prof. Clóvis sexta.
O Prof. Clóvis era um sujeito alto, negro, de barba e cabelo brancos. Agia como um sargento ao corrigir nossas composições. Mas nesta quinta, nem idéias medíocres passavam pela minha mente. Só o sono. Eu estava quase dormindo quando uma idéia, pior que medíocre, iluminou minha mente.
No quarto de Edgar, filho do dono da pensão, há um computador. Edgar era muito amigo meu. Sujeito simples, magrela, era esforçado e estudioso, o oposto de mim. Entrei no quarto dele; sabia que ele costumava ficar até tarde na Internet. Pedi pra usar o computador e ele deixou. Era só um minuto. Entrei em um site de busca e digitei o tema da redação, cliquei em qualquer link, copiei um texto e imprimi. Era minha redação a partir de agora. Finalmente poderia dormir.
No dia seguinte, fui à escola, assisti às aulas e entreguei a redação. O Prof. Clóvis não se importou da redação ser impressa. Lembrei da Tia Alice, quando olhava para mim, com aqueles olhos azuis dengosos como quem dizia “esse é meu sobrinho amado, de quem me comprazo”. Me senti culpado, mas era o único jeito. E plagiar um texto não era um pecado muito grande.
Assisti às aulas e voltei para casa (casa nada, a pensão). Almocei e fui ver o Edgar, lá no quarto dele. “Meu! Que site que você andou vendo ontem?” ele me perguntou, logo que ele me viu. Falei que só tinha pegado um texto de um site que nunca tinha visto. “Olha só. Ta aqui no histórico: você entrou em um desses sites de neonazismo.” Eu fiquei branco quando lembrei que meu professor era negro. Havia dado um texto neonazista para meu professor de redação. “É melhor você fugir cara! Racismo é crime grave, você pode ir preso.” Eu gelei de medo. Eu não podia ir preso! O que a Tia Alice iria dizer se soubesse que eu estava na FEBEM ou em um presídio? “Vai rápido, junta suas coisas; depois você acerta o aluguel do quarto com minha mãe. Mas agora você tem que ir pra longe e torcer pra esse tal de Clóvis demore pra corrigir sua redação” aconselhou o meu amigo. Foi exatamente isso que eu fiz: arrumei uma mala, peguei o dinheiro que me restava e saí correndo em direção à próxima estação de metrô.
Virei a esquina e saí correndo. Peguei um metrô até a estação da Luz. Cada pessoa que me olhava parecia estar me perseguindo. Eu estava desesperado. Na estação, peguei um trem para outra cidade. Estava numa enrascada.
Fui parar em Jundiaí. Foi a pior sexta-feira da minha vida. O dia, mesmo sem atrativos, provas ou aulas, pareceu durar o triplo do normal. Dormi em uma pensão perto da estação de Jundiaí.
Sábado de manhã botei o pé na rua, para ver o que ia fazer da vida. Talvez me entregasse, explicava o que aconteceu... Quem acreditaria que foi sem querer? Só Edgar e Tia Alice, que sempre acreditou em mim. Ela nem poderia imaginar o que estava acontecendo.
Ao passar por uma banca de jornal fiquei surpreso. Eu esperava ver algo do tipo “Aluno insulta professor negro” ou “Texto neonazista é escrito por aluno do ensino médio”. Não, o que eu vi foi a data: “Sábado, dia 2 de abril de 2007”. Abri minha mala e procurei o papel onde havia anotado o telefone da pensão. Não achei. Achei outro papel escrito assim:
“Toma jeito cabeção. 1º de abril. Edgar”
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Ao 9º de Dante
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Soneto
Desço o "s" da rua lentamente
assoviando pássaros no ar.
Meus passos não têm pressa. Devagar
sinto me refrescar o vento à mente.
Será pois isso que meu corpo sente
mentira? Quem pois tenta me enganar?
Os meus sentidos? Posso eu afirmar
que o que vejo existe realmente?
Ninguém em sã razão afirmaria
ser falso, uma ilusão, ou mentiroso
esse, da flor, perfume que se evola!
Concluo enfim a vil filosofia
andando tão sem pressa, vagaroso,
perco o ônibus que me leva à escola...
Poema escrito em algum dia do mês de setembro ou outubro de 2008.
Lembrança
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"Não"
Estávamos nós, eu e mais dois amigos, esperando mais um companheiro para iniciar a caminhada semanal que fazíamos no interior de um shopping center na cidade. Estávamos sentados no chão asfáltico do estacionamento do shopping, tranquilos.
Há quem diga que o esforço para atingir a normalidade e o anonimato absoluto em meio à multidão é tão em vão quanto o esforço de um garoto mal aparentado para se tornar popular em meio a um público jovem. Assim ocorreu com nossa tentativa de permanecer quietos e alheios ao mundo enquanto esperávamos.
Pois digo que, sem regêngia lógica alguma, parou em nossa frente um carro vermelho, cujo modelo não posso deixar de esquecer, descendo dele um homem grisalho com aparência de ter 47 anos e uns três meses de idade. Ele, vestindo uma camisa amarela e marrom, olhou para nós e disse:
- Oi. Vocês querem falar comigo?
Em meio a dúvidas e questões ainda mais existenciais, respondemos, aparentando um certo grau de certeza:
- Não.
O senhor não voltou a falar. Coçou a orelha, entrou no carro e foi embora.
Fato ocorrido com o Sr. Gurgel há muito tempo atrás. Eu não estava presente. Escrito há mais de um mês.
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Exame
Ora, o que eu deveria esperar do exame médico? Os resultados seriam os já de antemão conhecidos: olhos míopes, rosto assimétrico e uma leve cifose. Nada que poderia me impedir de fazer qualquer coisa que não fosse pilotar um caça da força aérea, ser modelo da Armani ou trabalhar no Cirque du Soleil. Mas nem precisei pensar muito: depois de poucos minutos esperando, saía da salinha um jovem, significando que era minha vez.
- "T V E W F Y 3".
- Mas não é nada grave ou importante. Você consegue identificar as cores da sinalização. Só tem dificuldade de distinguir alguns tons de verde.
Voltei para casa com minha ficha verde, minha calça marrom, meus tênis dourados e minha camiseta branca com detalhes acinzentados.
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