Lembrança

        Em um desses dias atrás descobri que alguns amigos meus cursaram o jardim-de-infância na mesma escola que eu. Confesso que não lembro nem um pouco deles naquela época. Há poucas lembranças nítidas dessa época na minha mente, e a grande maioria é do prèzinho (sim, esse acento já esteve correto um dia: http://bit.ly/WDEZU ) quando eu já era um pouco mais crescido.
        Porém lembro-me de algo muito bem, um fato que talvez seja a memória mais antiga que eu tenho dessa escola: a hora de escovar os dentes. Depois do lanche as professoras nos levavam, juntos, até uma grande pia, para escovarmos os dentes. Penso que isso deveria ser um recurso meramente pedagógico, algo para ensinar as crianças a tornar a higiene bucal parte de suas rotinas. Eu não conheço muitas pessoas hoje que possuem o hábito de escovar os dentes depois de um mero lanchinho. Devo dizer inclusive que isso deixou de acontecer no pré.
        Naquela idade eu tinha um certo senso de coletivismo, ou, pelo menos, uma menor rigidez em separar as posses próprias e do próximo. Pensando bem, talvez seja muito mais um individualismo do que coletivismo, pois tudo que estivesse ao alcance da mão poderia parar dentro dela de acordo apenas com a minha vontade, e não havia grandes preocupações sobre de quem era aquilo.
         Assim era o que eu fazia na hora de escovar os dentes: decidia diariamente com qual daquelas coloridas e divertidas escovas sobre a pia eu iria escovar os meus dentes. Havia várias, muitas delas fascinantes. Algumas mudavam de cor na água gelada, outras traziam em seu cabo personagens dos nossos desenhos animados favoritos, e outras simplesmente possuiam as cerdas engraçadas e despertavam a vontade de usá-las pelo menos uma vez. Eu simplesmente escolhia a que mais me chamava atenção, só isso. Apenas não escolhia as escovas nitidamente femininas, não eram do meu agrado.
        Isso ocorreu não sei por quanto tempo, até que um certo dia, para minha surpresa, a professora (ou "tia") da classe tirou da minha mão uma dessas escovas incríveis e disse:
         - Eduardo! Não pode usar as escovas dos outros! Use a sua. - e me entregou uma escovinha verde que não mudava de cor, nem sequer possuía algo de diferente nas cerdas ou no cabo, com excessão de uma etiqueta com símbolos que eu podia reconhecer mas não reproduzir: EDUARDO.
        Não posso deixar de dizer que, a partir daquele dia, escovar os dentes passou a ser muito menos divertido.

0 comentários:

Postar um comentário