Vocês todos presenciaram. A luz minguando, oscilando lentamente, diminuindo até apagar. Não só uma, todas. Todas as luzes apagaram. Certamente restaram as luzes de emergência, mas essas nada fazem senão nos livrar da morte, na medida de seu alcance. E pouco elas durarão, se a escuridão que cobre casas, prédios e cidades não se retirar.
Talvez as usinas hidrelétricas tenham parado. Talvez as águas que por elas corriam pararam de correr. E não é necessário que se explique como e por que isso aconteceu. Mas, mesmo não sendo necessário, pode trazer satisfação a tantos que procuram um motivo, além de trazer uma ocupação a um jovem em meio ao escuro.
Talvez tenham as águas cansado de se mover. "Mas a gravidade é que as move" - diria alguém tentando parecer sensato. Cansou-se então a gravidade de mover as águas das hidrelétricas! Uma greve da natureza contra os homens. E então diriam os ambientalistas: "Dissemos que a natureza iria cobrar caro." Mas nem eles têm razão, pois consideram a natureza um funcionário explorado que morre fadigado em meio ao trabalho. E sabemos que não é esse o caso. Multidões de funcionários podem ser levados a uma greve mesmo que não estejam sendo cruelmente explorados, bastando para isso um sindicato bem articulado e com grandes interesses.
Mas, se apenas as águas parassem, o que importaria? Importaria aos peixes, aos seres fluviais, e não aos humanos egoístas. Só importa a nós agora pois essa paralização nos tirou a luz. Vimo-la minguar, oscilar, diminuir até apagar, tudo isso com nossos próprios olhos. E quase nenhum de nós pensou que pudessem ser todas as luzes que se apagaram, até obter notícias de desesperados distantes.
A luz faz falta. Sem elas, foi-se o trabalho, foi-se o trânsito, foi-se a nossa comunicação. Este texto mesmo só será divulgado se a luz voltar, pela volta do movimento das águas ou por outro motivo.
Na noite, criam-se novas luzes nos quartos. Fogo, tal como nos tempos de nossos antepassados. Um fogo fraco, mais natural que as lâmpadas. Junto das velas, os que crêem e os céticos, mesmo que inconscientemente, fazem preces para que a luz volte em breve, pois temos medo, medo do escuro.
Texto escrito na terça-feira, durante o apagão, à luz de uma vela fraca.
Medo do Escuro
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"Não"
Estávamos nós, eu e mais dois amigos, esperando mais um companheiro para iniciar a caminhada semanal que fazíamos no interior de um shopping center na cidade. Estávamos sentados no chão asfáltico do estacionamento do shopping, tranquilos.
Há quem diga que o esforço para atingir a normalidade e o anonimato absoluto em meio à multidão é tão em vão quanto o esforço de um garoto mal aparentado para se tornar popular em meio a um público jovem. Assim ocorreu com nossa tentativa de permanecer quietos e alheios ao mundo enquanto esperávamos.
Pois digo que, sem regêngia lógica alguma, parou em nossa frente um carro vermelho, cujo modelo não posso deixar de esquecer, descendo dele um homem grisalho com aparência de ter 47 anos e uns três meses de idade. Ele, vestindo uma camisa amarela e marrom, olhou para nós e disse:
- Oi. Vocês querem falar comigo?
Em meio a dúvidas e questões ainda mais existenciais, respondemos, aparentando um certo grau de certeza:
- Não.
O senhor não voltou a falar. Coçou a orelha, entrou no carro e foi embora.
Fato ocorrido com o Sr. Gurgel há muito tempo atrás. Eu não estava presente. Escrito há mais de um mês.
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