Era uma quinta-feira à noite, eu estava acordado tentando achar uma idéia para fazer uma redação. Às seis horas da manhã do dia seguinte teria que acordar e ir à escola. Escola boa, escola de bacana, e eu, lá no meio, era a exceção: morava, não em um apartamento chique ou em um sobrado de janela bonita, e sim em uma pensãozinha mixuruca.
A pensão ficava em um bairro bonito da capital, no mesmo bairro da escola. Quem pagava a escola era minha madrinha Tia Alice, que tinha dinheiro, ao contrário de meus pais. Mas quem disse que eu gostava? Para estudar lá eu não podia morar na minha cidade, tinha que morar na pensão; além disso eu era um vagal: detestava ler textos e fazer tarefa de casa. Mas o problema era o seguinte: nesta quinta-feira eu tinha que fazer uma redação para entregar ao Prof. Clóvis sexta.
O Prof. Clóvis era um sujeito alto, negro, de barba e cabelo brancos. Agia como um sargento ao corrigir nossas composições. Mas nesta quinta, nem idéias medíocres passavam pela minha mente. Só o sono. Eu estava quase dormindo quando uma idéia, pior que medíocre, iluminou minha mente.
No quarto de Edgar, filho do dono da pensão, há um computador. Edgar era muito amigo meu. Sujeito simples, magrela, era esforçado e estudioso, o oposto de mim. Entrei no quarto dele; sabia que ele costumava ficar até tarde na Internet. Pedi pra usar o computador e ele deixou. Era só um minuto. Entrei em um site de busca e digitei o tema da redação, cliquei em qualquer link, copiei um texto e imprimi. Era minha redação a partir de agora. Finalmente poderia dormir.
No dia seguinte, fui à escola, assisti às aulas e entreguei a redação. O Prof. Clóvis não se importou da redação ser impressa. Lembrei da Tia Alice, quando olhava para mim, com aqueles olhos azuis dengosos como quem dizia “esse é meu sobrinho amado, de quem me comprazo”. Me senti culpado, mas era o único jeito. E plagiar um texto não era um pecado muito grande.
Assisti às aulas e voltei para casa (casa nada, a pensão). Almocei e fui ver o Edgar, lá no quarto dele. “Meu! Que site que você andou vendo ontem?” ele me perguntou, logo que ele me viu. Falei que só tinha pegado um texto de um site que nunca tinha visto. “Olha só. Ta aqui no histórico: você entrou em um desses sites de neonazismo.” Eu fiquei branco quando lembrei que meu professor era negro. Havia dado um texto neonazista para meu professor de redação. “É melhor você fugir cara! Racismo é crime grave, você pode ir preso.” Eu gelei de medo. Eu não podia ir preso! O que a Tia Alice iria dizer se soubesse que eu estava na FEBEM ou em um presídio? “Vai rápido, junta suas coisas; depois você acerta o aluguel do quarto com minha mãe. Mas agora você tem que ir pra longe e torcer pra esse tal de Clóvis demore pra corrigir sua redação” aconselhou o meu amigo. Foi exatamente isso que eu fiz: arrumei uma mala, peguei o dinheiro que me restava e saí correndo em direção à próxima estação de metrô.
Virei a esquina e saí correndo. Peguei um metrô até a estação da Luz. Cada pessoa que me olhava parecia estar me perseguindo. Eu estava desesperado. Na estação, peguei um trem para outra cidade. Estava numa enrascada.
Fui parar em Jundiaí. Foi a pior sexta-feira da minha vida. O dia, mesmo sem atrativos, provas ou aulas, pareceu durar o triplo do normal. Dormi em uma pensão perto da estação de Jundiaí.
Sábado de manhã botei o pé na rua, para ver o que ia fazer da vida. Talvez me entregasse, explicava o que aconteceu... Quem acreditaria que foi sem querer? Só Edgar e Tia Alice, que sempre acreditou em mim. Ela nem poderia imaginar o que estava acontecendo.
Ao passar por uma banca de jornal fiquei surpreso. Eu esperava ver algo do tipo “Aluno insulta professor negro” ou “Texto neonazista é escrito por aluno do ensino médio”. Não, o que eu vi foi a data: “Sábado, dia 2 de abril de 2007”. Abri minha mala e procurei o papel onde havia anotado o telefone da pensão. Não achei. Achei outro papel escrito assim:
“Toma jeito cabeção. 1º de abril. Edgar”
A pensão ficava em um bairro bonito da capital, no mesmo bairro da escola. Quem pagava a escola era minha madrinha Tia Alice, que tinha dinheiro, ao contrário de meus pais. Mas quem disse que eu gostava? Para estudar lá eu não podia morar na minha cidade, tinha que morar na pensão; além disso eu era um vagal: detestava ler textos e fazer tarefa de casa. Mas o problema era o seguinte: nesta quinta-feira eu tinha que fazer uma redação para entregar ao Prof. Clóvis sexta.
O Prof. Clóvis era um sujeito alto, negro, de barba e cabelo brancos. Agia como um sargento ao corrigir nossas composições. Mas nesta quinta, nem idéias medíocres passavam pela minha mente. Só o sono. Eu estava quase dormindo quando uma idéia, pior que medíocre, iluminou minha mente.
No quarto de Edgar, filho do dono da pensão, há um computador. Edgar era muito amigo meu. Sujeito simples, magrela, era esforçado e estudioso, o oposto de mim. Entrei no quarto dele; sabia que ele costumava ficar até tarde na Internet. Pedi pra usar o computador e ele deixou. Era só um minuto. Entrei em um site de busca e digitei o tema da redação, cliquei em qualquer link, copiei um texto e imprimi. Era minha redação a partir de agora. Finalmente poderia dormir.
No dia seguinte, fui à escola, assisti às aulas e entreguei a redação. O Prof. Clóvis não se importou da redação ser impressa. Lembrei da Tia Alice, quando olhava para mim, com aqueles olhos azuis dengosos como quem dizia “esse é meu sobrinho amado, de quem me comprazo”. Me senti culpado, mas era o único jeito. E plagiar um texto não era um pecado muito grande.
Assisti às aulas e voltei para casa (casa nada, a pensão). Almocei e fui ver o Edgar, lá no quarto dele. “Meu! Que site que você andou vendo ontem?” ele me perguntou, logo que ele me viu. Falei que só tinha pegado um texto de um site que nunca tinha visto. “Olha só. Ta aqui no histórico: você entrou em um desses sites de neonazismo.” Eu fiquei branco quando lembrei que meu professor era negro. Havia dado um texto neonazista para meu professor de redação. “É melhor você fugir cara! Racismo é crime grave, você pode ir preso.” Eu gelei de medo. Eu não podia ir preso! O que a Tia Alice iria dizer se soubesse que eu estava na FEBEM ou em um presídio? “Vai rápido, junta suas coisas; depois você acerta o aluguel do quarto com minha mãe. Mas agora você tem que ir pra longe e torcer pra esse tal de Clóvis demore pra corrigir sua redação” aconselhou o meu amigo. Foi exatamente isso que eu fiz: arrumei uma mala, peguei o dinheiro que me restava e saí correndo em direção à próxima estação de metrô.
Virei a esquina e saí correndo. Peguei um metrô até a estação da Luz. Cada pessoa que me olhava parecia estar me perseguindo. Eu estava desesperado. Na estação, peguei um trem para outra cidade. Estava numa enrascada.
Fui parar em Jundiaí. Foi a pior sexta-feira da minha vida. O dia, mesmo sem atrativos, provas ou aulas, pareceu durar o triplo do normal. Dormi em uma pensão perto da estação de Jundiaí.
Sábado de manhã botei o pé na rua, para ver o que ia fazer da vida. Talvez me entregasse, explicava o que aconteceu... Quem acreditaria que foi sem querer? Só Edgar e Tia Alice, que sempre acreditou em mim. Ela nem poderia imaginar o que estava acontecendo.
Ao passar por uma banca de jornal fiquei surpreso. Eu esperava ver algo do tipo “Aluno insulta professor negro” ou “Texto neonazista é escrito por aluno do ensino médio”. Não, o que eu vi foi a data: “Sábado, dia 2 de abril de 2007”. Abri minha mala e procurei o papel onde havia anotado o telefone da pensão. Não achei. Achei outro papel escrito assim:
“Toma jeito cabeção. 1º de abril. Edgar”
Texto escrita em uma quinta-feira de 2007, à noite, às vésperas de entregá-lo para meu professor de redação. O título foi colocado apenas hoje.
1 comentários:
hahahahah
;o)
Postar um comentário