Outono

     Minha inspiração parecia uma árvore decídua. Não só isso, mas tudo me levava a crer que era pleno outono, época de colher os frutos do que foi semeado e deixar que tudo o mais perca a cor e seja dominado pelo inverno.
     Frutos não havia. As sementes se perderam em caminhos perigosos, espinhais e terrenos pedregosos. E talvez não houvesse uma quarta semente para cair em boa terra e terminar feliz como diz a santa parábola. Era tarde, era outono, e o inverno viria.
     Talvez uma das paisagens mais belas de se ver seja um grupo de árvores com suas folhas todas amarelas, como se tivessem recebido um banho de ouro. É uma cena que, por sua beleza, traz felicidade, mas não uma felicidade extasiante ou intensa como de uma gargalhada, e sim uma felicidade um tanto nostálgica, constante e serena; um doce meio-amargo. Quando, porém, as folhas começam a cair, resta-nos apenas a nostalgia, e a felicidade que um passado trouxe - ou que um futuro poderia trazer - torna-se uma amargura irremediável.
     O barulho que fazem as folhas caídas é mais silencioso que a pura quietude. Ele anuncia uma estação em que as folhas serão enterradas pelo solo e não sairão mais de lá. O vento não me tenta confortar, mas diz-me constantemente para me conformar. Talvez esteja certo.
     O que me importa se virá uma primavera depois do inverno? Talvez até lá eu já esteja frio suficiente para ter neves eternas em minha cabeça. Talvez até lá eu não consiga mais sentir o cheiro das flores. Pra que servem as flores? Mas se me desespero, desconformo a mim e se me conformo desespero a todos.
     Aos outros, não devo satisfações. Eles parecem viver em outro mundo ou país, menos maltratado pelas rígidas estações ou com anos mais curtos onde o descanso chega mais cedo e a intempérie não corrói as raízes. E também o Sol já brilhou mais para mim do que para eles em algum dia.
     Mas se uma flor nasce no asfalto frio, quê digo eu? Se no meio de uma rígida pedra há um caminho, quê faço eu? Digo que acordei, e estava dormindo. Escrevo um texto que nunca escrevi. Canto uma canção a um novo raio de Sol que vi brilhar. Mudo a ordem das estações. Sorrio, coro e pulso forte.
     No meio de incertezas diversas e evidências que conspiram contra mim, se vejo uma folha tombar, não temo: não acredito mais no inverno.

1 comentários:

Anônimo 23 de abril de 2010 às 08:37  

Eu gostei muito de ler o texto, embora acredite que a poesia dele seja profunda demais para que eu entenda, huahuahua...

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