Ao 9º de Dante

        O escritório estava inquieto, como era comum em toda manhã de terça-feira. O dia anterior havia aquecido os motores descansados no fim de semana, e agora todos se preparavam para trabalhar em ritmo intenso, como exige a vida.
         Alberto organizava os papéis cheios de dados obtidos na reunião da semana passada. Apesar de ser bem cedo, ele já estava suficientemente acordado. O tempo passava rápido para ele, e rápido também era o que havia de ser feito. Muitos lá na empresa estavam assustados, ficavam ouvindo notícias ruins sobre crise e demissões. O pessoal da contabilidade principalmente, eles sabiam mais sobre falta de capital. Alberto, no entanto, estava bem tranquilo. Outros assuntos eram, para ele, mais complexos ou interessantes, dignos de um lugar em sua mente.
          Algumas janelas abertas traziam um vento suave próprio da primavera para dentro do escritório, dando a alguns vontade de sair do alto edifício e aproveitar melhor o belo dia. Alberto traía essa sua vontade, criando motivos e desculpas para permanecer em seu lugar.
         Se pudesse ver o sol, saberia que a manhã se aproximava do fim. Porém, vendo o relógio do computador, sabia precisamente que eram dez horas e oito minutos naquele instante. Conferiu o horário obtido olhando seu relógio de pulso. Seria imprudente confiar muito em um só relógio. E nesse instante foi que Diana veio até a sua mesa e disse, de forma um tanto indiferente, que o patrão lhe estava chamando em sua sala.
         Alberto não entendia por que Diana ainda dissimulava o envolvimento mais que profissional que havia entre ele e ela. O conhecimento sobre seu pequeno e desimportante caso já estava espalhado extra-oficialmente por todo o departamento, transmitido por tantas línguas afiadas e de aparência inofensiva. E não seria tão difícil notar o que ocorria mesmo sem as fofocas, pois Diana não conseguia ocultar todas as suas emoções de modo eficaz, nem Alberto poderia esconder de seus colegas todos os olhares indiscretos que dirigia a ela.
          Mas o patrão lhe chamava. Numa visão otimista, ir até a sala do próprio chefe era um pequeno mas confortável intervalo do labor. Então ele se levantou lentamente e se dirigiu à sala com passos largos e vagarosos. Antes, é claro, agradeceu a Diana pelo aviso com um "obrigado" sussurrado e um sorriso muito mal contido.
         Abriu a porta de leve para ter certeza de que era bem-vindo e, ao ouvir um "entre" sonoro do outro lado, pôs-se inteiramente dentro da sala.
          - Sente-se Alberto - disse o patrão, de modo cordial.
         Alberto se sentou na única cadeira disponível, em frente à mesa do patrão. A cadeira era mais macia e confortável do que a cadeira de sua mesa, e a cadeira em que o patrão estava sentado à sua frente parecia ainda melhor. "Preciso arranjar uma cadeira como essa." - pensou Alberto.
          - Alberto, você deve estar ciente da situação atual da empresa e do nosso departamento.
          - Sim, Sr. Fernandes, todo mundo está falando. - respondeu o funcionário.
          - Todo mundo sempre fala Alberto, mas nem sempre dizem o que é necessário. Mas sim, esse rebuliço todo de mercado financeiro afetou de forma considerável o nosso orçamento. E algumas ações devem ser feitas. Eu pensei muito no final de semama e ontem, e, infelizmente, cheguei à conclusão de que devo demití-lo.
          Alberto não respondeu. Só ficou olhando para a mesa do chefe sem foco algum, tentando enxergar o motivo. O patrão retomou a conversa:
          - Passe no R.H., você receberá tudo o que tem direito.
          Mas Alberto ainda estava absorto em pensamentos. Por que ele? Por que não o Rodrigo que era novo por ali e não conhecia o pessoal direito? Por que não o Silveira que havia discutido com o Sr. Fernandes há poucas semanas?
         - Sr. Fernandes... - disse Alberto hesitante. - Se me permite, gostaria de saber qual critério o senhor usou para me escolher. Tenho certeza de que não foi por falta de eficiência.
         - Não tenho o dever de lhe explicar minhas decisões - disse o patrão severamente. - Mas acho que posso dizer algumas coisas. Você não é o funcionário menos eficiente, nem é o melhor dos que aqui trabalham. Porém alguns dias atrás eu fiquei sabendo de você e a Diana, e isso influenciou muito a minha decisão.
         - Mas... nós não nos encontrávamos em horário de trabalho.
         - Eu sei. Eu teria notado a falta de vocês caso isso ocorresse.
         Sem compreender a relação entre seu caso com Diana e a demissão inesperada, Alberto começou a ficar ainda mais confuso e nervoso. Ele olhou para o Sr. Fernandes simulando uma certa calma e inocência:
          - Acho que minha vida pessoal não deveria ser levada em conta.
          - O grande problema, Alberto, é que a vida pessoal e a vida profissional são vividas pela mesma pessoa, se entende o que quero dizer. - disse o patrão com um pequeno sorriso, como de quem aprova a qualidade da própria frase. - Você é casado, não é? Creio que poucos no escritório sabem disso.
         Agora Alberto começava a ficar com raiva. Seus olhos se fixaram nos do patrão cheios de ira, e com essa mesma ira ele gritou:
          - Sou! Por que se importa com isso? Isso não interessa!
          Os funcionários do lado de fora da sala puderam ouvir o que Alberto disse, e todos se impressionaram com a temperatura da discussão, porém poucos sabiam o assunto.
         - Realmente. - disse o Sr. Fernandes, cheio de calma, mostrando um perfeito auto-controle, uma das características que certamente contribuíram para que ele chegasse a seu atual cargo. - Agora já não me interessa mais. Mas deixe-me dizer uma coisa Alberto, algo que talvez você não tenha ouvido ainda.
          Os dois continuaram se olhando fixamente. Sr. Fernandes austero e calmo e Alberto nervoso a ponto de deixar grandes marcas de suor em sua bela camisa azul.
         - Se você acha que o seu caráter não é de meu interesse, se engana profundamente. Se você é capaz de, naturalmente, enganar sua esposa, desprezando toda e qualquer confiança que ela deposita em você, por que eu deveria esperar que você honre a confiança que eu tenho em você no trabalho? Por que eu deveria esperar que você dê algum valor à ética com seus colegas ou até mesmo com a empresa? Por que alguém deveria confiar em você, Alberto?
         - Dê suas lições de moral a outro! - gritou Alberto, levantando-se da cadeira.
          Alberto saiu da sala. Bateu a porta com toda a raiva que podia transmitir aos braços. Não olhou nenhum dos colegas, que o viam com o canto dos olhos, fingindo que não haviam escutado, ou tentado escutar, a discussão.
         Foi até o R.H., assinou os papéis, recolheu os pertences sobre a mesa que já não seria mais dele. Não olhou para ninguém. Nem para Diana, que constantemente o olhava com um jeito preocupado e ameaçando chorar. Diana temia ser também demitida.
          Alberto saiu do prédio, sem vontade nenhuma de contemplar o céu claro sem nuvens. Ele saiu sem se despedir de ninguém. Não se despediu de Diana, e nunca mais conversaria com ela. Não se despediu de sua cadeira, e nunca mais se sentaria nela. Simplesmente saiu, entrou no carro, colocou a aliança que estava escondida no porta-luvas e foi-se embora, torturado como se estivesse no 9º de Dante.

2 comentários:

Anônimo 17 de outubro de 2009 às 16:45  

Muito bem escrito e saboroso de se ler, como todos os outros posts, senhor Du!
Só uma correção: "terça-feira", no primeiro período. Tem como corrigir digitação no blog?
Impressionante você ter tanta habilidade pra escrever histórias dos mais variados estilos, cara!
Ficou admirável!

Eduardo Queiroz Peres 18 de outubro de 2009 às 16:08  

Brigadão Renan! Já está corrigido :D

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