"Não"

       Estávamos nós, eu e mais dois amigos, esperando mais um companheiro para iniciar a caminhada semanal que fazíamos no interior de um shopping center na cidade. Estávamos sentados no chão asfáltico do estacionamento do shopping, tranquilos.
       Há quem diga que o esforço para atingir a normalidade e o anonimato absoluto em meio à multidão é tão em vão quanto o esforço de um garoto mal aparentado para se tornar popular em meio a um público jovem. Assim ocorreu com nossa tentativa de permanecer quietos e alheios ao mundo enquanto esperávamos.
        Pois digo que, sem regêngia lógica alguma, parou em nossa frente um carro vermelho, cujo modelo não posso deixar de esquecer, descendo dele um homem grisalho com aparência de ter 47 anos e uns três meses de idade. Ele, vestindo uma camisa amarela e marrom, olhou para nós e disse:
       - Oi. Vocês querem falar comigo?
        Em meio a dúvidas e questões ainda mais existenciais, respondemos, aparentando um certo grau de certeza:
       - Não.
       O senhor não voltou a falar. Coçou a orelha, entrou no carro e foi embora.

Fato ocorrido com o Sr. Gurgel há muito tempo atrás. Eu não estava presente. Escrito há mais de um mês.

1 comentários:

Anônimo 3 de outubro de 2009 às 05:59  

Fato que jamais abandonará minha memória!
Mas o grau de certeza era apenas aparente...
Ainda hoje não sei se não queria mesmo falar com ele.

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