Exame

        Rua Xisto Pereira, número 555. Eu me dirigia para este local a pé pois não tinha habilitação para dirigir. Se tivesse nem iria até o endereço, pois estava lá para fazer o exame médico do DETRAN. Estava nublado e quente. Entrei no consultório vestindo minhas calças verdes, a camiseta branca com detalhes verdes e tênis com detalhes também verdes.
        Não me julguem por combinar as roupas. Esse costume vem da época em que minha mãe escolhia as minhas roupas, e ela invariavelmente combinava as cores das mesmas. Além disso, sempre gostei de verde; gosto simplesmente por gostar, longe de qualquer envolvimento ecológico ou associação com time de futebol.
        Entrei no consultório e logo fui atendido por uma simpática secretária. Era jovem, tinha uma pele levemente morena e os cabelos alisados e loiramente tingidos. Bonita. Entregou-me uma ficha de cadastro, que era verde. Eu deveria esperar no corredor, o doutor logo iria me chamar.
        Ora, o que eu deveria esperar do exame médico? Os resultados seriam os já de antemão conhecidos: olhos míopes, rosto assimétrico e uma leve cifose. Nada que poderia me impedir de fazer qualquer coisa que não fosse pilotar um caça da força aérea, ser modelo da Armani ou trabalhar no Cirque du Soleil. Mas nem precisei pensar muito: depois de poucos minutos esperando, saía da salinha um jovem, significando que era minha vez.
        Entrei no que poderia ser chamado de consultório médico do século 19. A sala era escura, iluminada apenas por uma pequena fresta da janela e um abajur antigo sobre a mesa. Sentado à mesa, uma figura de mais de 80 anos, ou mais de 800. Tinha a camisa branca, a calça branca e os sapatos brancos. Sua barba e seus cabelos eram todos brancos. Fez um gesto para que eu me sentasse na cadeira a seu lado, do mesmo lado da mesa. À minha frente, além da mesa, havia a parte não iluminada da sala, e nada senão o escuro.
        Entreguei a ele minha ficha verde. Ele escreveu algo com uma caneta velha. Dentre as "cousas" que estavam sobre a mesa, ligou um projetor jurássico e sobre a parede surgiu um quadrado iluminado com algumas letras.
        - Leia para mim, Eduardo. - disse-me ele.
        - "T V E W F Y 3".
        - Exato.
        Ele nem me perguntou sobre meus óculos, nem me pediu para que eu os tirasse. Estava tudo muito fácil.
        Pegou ele então um peso metálico que possuía uma alça rígida e pediu para que eu a apertasse, primeiro com uma mão e depois com a outra. Não entendi o motivo daquilo.
        Por último, pegou um livreto negro que parecia um livro de feitiços. Não havia nada na capa, e, como poderia ser visto em seu lado, as páginas também eram pretas, com a lógica excessão do que poderia estar escrito nelas, fosse impresso ou manuscrito em caracteres góticos. Abriu-o, e ali, na primeira pagina, estavam vários pontos coloridos de tamanhos e cores diferentes, formando um círculo. Podia se notar o número "5" formado pelos pontos vermelhos.
        - Que número você vê, Eduardo?
        - Cinco.
        - Exato. - virou a página - E aqui?
        Havia algo lá. No meio dos pontos marrons havia alguns esverdeados. Mas era difícil dizer que figura eles formavam.
        - Seria... um... Três?
        - Hum... Aqui você vê algo? - disse ele.
        - Vinte e sete.
        - E aqui? - virou a página novamente - Aqui não tem nada, não é?
        Concordei. Havia algo diferente, mas eu não sabia o que era.
        - Você é daltônico Eduardo. - falou ele, calmamente, quase que sorrindo.
        - Sou ?!?
        - Mas não é nada grave ou importante. Você consegue identificar as cores da sinalização. Só tem dificuldade de distinguir alguns tons de verde.
         Ele terminou de preencher minha ficha, entregou-a para mim e, com um sorriso, disse:
         - Apenas tome cuidado na hora de combinar as roupas.
        Voltei para casa com minha ficha verde, minha calça marrom, meus tênis dourados e minha camiseta branca com detalhes acinzentados.

Escrito em 29/09/2009. A consulta foi no dia anterior.

4 comentários:

Dani 2 de outubro de 2009 às 07:09  

Amei, amei, amei!!!!

Dani
xxxx

Anônimo 3 de outubro de 2009 às 06:02  

Então temos outro daltônico no grupo! Quem diria, heim, senhor Eduardo? Espera aí... como você resolveu o problema dos 6N pontos pintados, então? Brincadeira!
Nota dez pro seu blog, Du.

Davi CS 3 de outubro de 2009 às 19:18  

Hahaha!

O grampo que se manda apertar é para verificar se você tem força para tocar uma buzina. E combinar cores não é simplesmente repeti-las!

=]

Anônimo 12 de maio de 2010 às 20:20  

Hahah muito bom!

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